Domingo, Abril 10, 2011

E Komo Mai


É assim que o Hawai'i recebe, seja bem-vindo!

Perdida no meio do pacifico, este conjunto de ilhas que tive a oportunidade recente de visitar a da capital - Oahu - que significa reunião, é certamente um dos paraísos na terra. Fui como sempre, em trabalho e desenganem-se os mais cépticos porque a minha tez pálida não engana: fui branca como a cal e vim branca como a neve. Voltarei um dia, daqui a alguns anos, porque a viagem é demasiado longa para lá dar um pulinho. É simplesmente a rota mais remota de todas as rotas de aviação, o pedaço de terra mais remoto de todos os locais na terra... qualquer turbilhão naquele imenso pacífico facilmente atinge as ilhas e estou grata que nada tenha sucedido durante a minha curta estadia.

Não tive lei (não de legislar)... sim, não tive nenhuma coroa de flores ao pescoço o que deixa a pensar que o resto do mundo é mais papista que o próprio Papa (por isso posso afirmar no belo trocadilho inglês que I didn't get Lei'd). Mas vi varias bancas em género de quiosque, iguais às bancas de gelados, que nas arcas frigoríficas tinham em exposição vários Lei de flores variadas, com flores de coco as mais apreciadas.

O que me deixou honestamente desorientada nos primeiros dias foram os executivos em dia de trabalho: bela calça de pinças, pasta de executivo ou computador, telemóvel na orelha a discutir os assuntos do dia com as secretarias antes de chegar ao trabalho e....camisa havaiana. No meu imaginário, a camisa havaiana significava férias, relaxe, boa vida. Deixou definitivamente de o ser, pois a camisa "havaiana" é no Hawai'i uma peça de roupa digna de se vestir em dia de trabalho e de ser levado a sério enquanto se a veste.

Graças a uns amigos de alguma data e outros feitos por lá, consegui ver a ilha de fio a pavio (é como a Madeira, com um carro alugado faz-se aquilo num instante). É impressionante como a ilha está bem preservada fora do que é a capital com os seus prédios e arranha-céus. Não se vê nada com mais de 3 andares no resto da orla marítima ou sequer no interior. Tudo está como deve estar: preservado da acção humana. Nem os estacionamentos juntos às praias convidam a muitas enchentes. Uns míseros 40 lugares de estacionamento já são uma bela maquia e suficientes para dela usufruir.

Please don't feed me. Assim dizia a música nos 9 minutos de vídeo (em relação aos peixes) a que fomos obrigados a ver para que depois pudéssemos pisar as belas areias da praia que foi outrora uma cratera vulcânica. Uma praia no fundo de uma pequena ravina, que foi tornada numa bela enseada natural, inundada pelo mar na última subida das águas à uns milhares de anos. Lá fomos. Fim de tarde na praia com hora marcada para sair - a praia fecha às 6h00! Todo e qualquer ser humano levante-se da areia, saia da água e deixe a praia para a bicharada. Don't step on me! (a mesma música, nesta parte dedicada aos corais) está agora a ecoar nas nossas cabeças e a subida a pé é opcional à subida por shuttle - mais caro na subida que na descida, a economia aqui é pensada a rigor.

Era raro encontrar alguém que não fosse descendente de português da quarta à sexta geração. É impressionante o quanto os portugueses andaram pelo mundo e a grande vaga de imigração do final de século está bem marcada. A recepcionista do hotel onde fiquei era ela própria descendente de portugueses. Dizia ela que a avó dela nasceu no barco na enseada de Honolulu, quando o barco se preparava para atracar. Não sabia português. A sua avó, que foi ensinada pela mãe na língua portuguesa, achou que com a invasão americana, a língua que deveriam saber era o inglês apenas, apesar dela ser letrada em português, inglês, francês e havaiano. Que perda imensa teve esta bisneta de portugueses!

É incrível como nós portugueses ( e o resto do mundo) sabemos tão pouco desta terra. Sabemos que eles têm o ukelele mas desconhecemos que foi introduzido por portugueses na sua forma mais conhecida: o cavaquinho. Que o tsunami japonês provocou grandes estragos em algumas da ilhas (sim, chegou lá). Que existem vulcões em actividade contínua, um deles desde à 28 anos (kilauea. Que se fala Havaiano: quase extinta, a língua foi objecto de intervenção educativa em 1949 e hoje, uma parte da população procura manter viva uma língua que fala de tudo, mas principalmente de água (wai). Que tem paisagens deslumbrantes alvo de cenários naturais para filmes de Hollywood (e eu vi, maravilhosas, uma cadeia montanhosa espectacular de retirar a respiração).Que tem sal de várias cores: o branco que é refinado, o vermelho de origem argilosa e o preto de origem vulcânica. Que a dança local é dançada de forma igual tanto por mulheres como por homens: os mesmos movimentos de anca, os mesmos movimentos de braços, tudo igual, excepto a vestimenta. E quanto mais haveria para dizer sobre esta cultura.

Gostei. Repetia. Tive pena de não conseguir usufruir mais, mas graças ao trabalho que lá me levou (e ao jetlag) consegui ver todos os dias o nascer do sol na montanha que conseguia ver da varanda do meu quarto. Fazia uma pausa nos meus acertos de powerpoint e recebia a tranquilidade do nascer do sol, entre o barulho da passarada e o entoar das sirenes das ambulâncias. Incrível a quantidade de ambulâncias que ouvi, todas as noites. Ou estava perto do hospital, ou Honolulu é agitada mesmo.

Muitos sem-abrigo. Uns a pedir nas ruas, com cartazes mais ou menos apelativos: "Life in the end, terminal cancer". "Please help a brother" Outros sem aspecto de necessidade diziam: "Help sustaine the research of weed". "Finance the alcool research". Pois é. Parece que este pedaço de terra alberga uma geração de neo-hippies. E falando destes, era frequente olhar para homens e mulheres na casa dos quarenta e cinquenta que tinham um aspecto de terem ido para lá em férias e ir ficando.. a mesma roupa de praia, a mesma descontracção, o mesmo ar veraneante e às vezes psicadélico mas agora com rugas... o tempo passou, deixou-lhes rugas, mas para eles é como se tivesse sido ontem.

E para mim foi ontem. Passou, deixou marca.

Mahalo nui loa Hawai'i (muito obrigada Havai)

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