
Nos dias de descanso do trabalho tive a sorte de ter por companhia uma cadela de seu nome marineta, uma cadela de Agonda, vadia, que preza os turistas e a comida que estes lhe dão. Seria este um tema completamente fora de caso, não fosse o caso desta cadela ser extremamente afectuosa e conseguir devolver todos os carinhos que lhe dei. Ao fim de tantos dias, semanas, meses sem poder abraçar ninguém, beijar ninguém, acarinhar ninguém, poder interagir com esta cadela fez com que de repente os dias pudessem passar mais rápido. Este amor incondicional que os animais conseguem dar permite encarcerar as saudades daqueles que se sentem sós e que estão longe de todas as possibilidades de pôr termo às distâncias do afecto. Já me senti só em Goa e muitas vezes derramei lágrimas enquanto tentava esconder a dor de estar longe do meu pequeno. Marineta não me fez esquecer dessa dor mas permitiu-me usar-me dela para amaciar as minhas tristezas e mascarar de cores coloridas as magoas que me atormentam. Foi bom ver uma cauda a abanar de contente quando me via pela primeira vez de manhã e um ladrar de ternura para me cumprimentar.
Agonda é ainda um pedaço de céu intocado. Uma dalit veraneante que lhe espera o mesmo destino de Palolem: turismo em massa, descaracterizante, invasor, demasiado populado e cheio de testosterona e projesterona. Estar em Palolem é como entrar em Albufeira, fala-se inglês, vêm-se turistas louros com pele cor-de-rosa e outros com pele cor de lagosta, come-se em restaurantes italianos, gregos, compra-se t-shirts e tudo o resto que não se precisa. A juntar a este cozinhado tempera-se o pregão dos taxistas: “Táxi madam? Today? Tomorow? Perhaps next year?”. 
Cola é outra praia de eleição a juntar a Agonda: calma, tranquila, um verdadeiro postal com o rio a desaguar no mar mas que morre na praia, literalmente, com coqueiros a inclinar sobre a areia (como dizia um amigo: “Será que os coqueiros fazem de propósito para parecer bonitos na fotografia?” – disse que sim e no mesmo jeito brincalhão respondi que é a famosa espécie de coqueirus fotogenicus!), e lâmpadas atamancadas de uma espécie de percebes. Já estou a imaginar os percebes a dizer para os amigos: “Tive uma ideia luminosa, ‘bora lá agarrarmo-nos nisto!”
Depois há os que preferem agarranços mais consistentes e mais assentes no chão e por isso escolhem crocos. É a isso que eu chamo a verdadeira pegada ecológica…
Acabaram-se os meus breves dias de ferias e voltei para a agitada Panjim. Marineta lá ficou agarrada a um pedaço de pizza para que não viesse atrás do carro. É duro mas a vida continua para todos.
Tento agora fazer o balanço dos dias que aqui passei. Conseguirei em breves palavras fazer jus às memórias, às experiências, aos encontros acidentais e aos acidentes de percurso? Não. Não é possível descrever em breves palavras aquilo que se vive especialmente quando isso envolve conhecer tantas e boas pessoas em tão pouco tempo, pessoas com um coração do tamanho do oceano que me separa dos meus, outras com uma doçura embriagante do género de um caju amadurecido. Entraram na minha vida para escolher um lugar especial no meu coração: fiz novos amigos. Conseguirei em breves palavras dizer tudo o que me vai cá dentro sem ser impostora aos meus sentimentos? Não. Não consigo dizer abertamente aquilo que cá guardo porque o turbilhão que ainda preenche as minhas restantes horas em Goa faz com que tudo e nada sejam o mesmo, tudo e nada sejam tudo e apenas isso: um turbilhão. Suponho que levarei algum tempo a acreditar que cá estive. Por vezes falta-me a crença de que consegui (como sou pequena e insignificante nesta índia imensa em que me lancei). Uma frase que me foi dita no início fez com que tivesse coragem nas horas más: “Eles não sabem que tu vais conquistar a índia” e no final é a índia que me conquista…sempre. Estou radiante por voltar a casa mas embarco com um bitter sweet no coração. Podia ser tudo mais fácil se todos vivêssemos na série do Star Wars: Beam me up Scotty!
Vou de consciência tranquila. Consegui fazer o que me propus e mais ainda. Ao menos assim, o tempo que sofri longe dos meus amores não foi sofrimento inútil. A índia, no entanto, mudou-me novamente. Sinto inexplicavelmente uma diferença, uma nova forma de viver a vida, uma nova forma de encarar as coisas. Cresci. Como cresci.
Esperam-me novos desafios e vou em frente com a mesma força que cá cheguei.


Pois é, nunca se está completo. Mas acredita que, agora que elegeste a Índia como objecto de estudo, vais voltar e voltar e voltar. E hás-de voltar com o teu filhito para lhe mostrares tudo. Boa sorte no regresso!
ResponderEliminarOlá Mónica!
ResponderEliminar9 de Abril... 19:49h... Já em solo Lusitano ou a caminho?
Como sempre textos magníficos, com muito sentimento... bom incentivo para quem, não tarda, estará (espero) na mesma rota!
Bom regresso. Um abraço.
Natércia
Cara Natercia,
ResponderEliminarEstou ainda na panjim que me acolheu, até amanha. Sigo para os voos para chegar um dia depois. Obrigada pela atenção com que me me escreves. Toma atenção: a Índia muda as pessoas!
Deus Meu, que saudades de Goa... aliás, em meu blog há um post mais ou menos "recente" sobre Goa... Lê lá! =)
ResponderEliminare eu vi: e quem queira ver, é aqui: http://avidanumagoa.blogspot.com/2009/11/o-que-de-goa-mais-saudade-sinto.html
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